Incessável

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Entrelacei meus dedos nos teus enquanto aninhava-me no seu tórax e a me aconchegava como em outras mil noites em que você me fazia companhia. Mas essa noite não era como uma das mil outras. Essa era a ultima noite em que eu sentiria sua respiração no meu pescoço e seu perfume em minha blusa.

Em cinco horas você iria viajar como uma das milhares de vezes, só que dessa vez iria chamar outro lugar de casa. E consequentemente eu perderia meu lugar favorito da cidade.

E enquanto o tempo voava, eu me esforçava para oprimir essa dor cáustica dentro de mim de saudades antecipadas mas a tentativa foi em vão. O ar estava tão denso, tão triste, tão melancólico. Como se todo mundo soubesse ou quisesse contribuir para essa tristeza de finalizar algo que eu queria que continuasse pra sempre externasse por ai.

Eu queria pra sempre sua voz melodiosa cochichando no meu ouvido, eu queria para sempre sua blusa virando meu pijama, eu queria para sempre deixar minha escova do lado da sua.

Como eu queria para sempre, no final das contas, não te perder. De uma vez só perdi um amigo, um amor e um lar. E tudo que eu não quero é ficar sozinha. Sozinha sem você.

Final

Final

Sempre fui aquele tipo de menina que não gosta de extremos. Você sabe disso mais do que ninguém. É estranho pensar que nossa história se cruze e descruze tanto por ai. Só que dessa vez parece que chegou ao final. Nunca gostei de palavras extremistas – apesar de escrever sempre com elas -, mas é hora de encaixa-las na nossa história. Talvez um adeus seja um palavra um tanto comum para me despedir. Já inventaram uma palavra que exprima todos os sentimentos vividos com você? Acho que não. Seria demais tentar escolher uma para definir amor, carinho, respeito, confiança e afeto. Seria demais uma palavra para definir a intensidade. A saudade. Sua voz inconfundível. Meu professor de química é de São Paulo e tem o mesmo sotaque que você, até nisso você consegue ser memorável. Queria, porém, dizer que você fora o primeiro de algo… Não foi. Talvez as primeiras experiencias tenham passado, ou elas sequer existiram. Foram todas restritas a uma chamada de duras horas e centenas de quilômetros. Não sei. É estranho pensar que duas almas se conectem tão distantes. Quilômetros me lembra você também. E fofura. Mas você tá longe. Longe. Longe. Longe. Distancia. Merda. Quero você de corpo aqui do meu lado. Quero você. Físico. Por inteiro.

Passado e alguns quilômetros

 textooo

Hoje, vasculhando minha própria mente me lembrei de você. Lembrei de todos os momentos em que vivemos, sorrisos, promessas trocadas, conversas sussurradas em uma madrugada que está dizendo boas vindas ao nascer do sol. Me lembrei da temperatura baixa, e eu agarrada no travesseiro ouvindo sua voz inconfundível, enquanto pensava silenciosamente no quão sortuda eu era por ter te conhecido, e mais ainda por ter você ao meu lado.

Queria poder esquecer. Você entra de fininho e em menos de um segundo já se apodera de novo dos meus pensamentos, das borboletas no meu estômago em frenesi, e principalmente do meu coração.

É duro, ver que o tempo passou, a fila andou, e você está com ela. Queria ter a chance (leia-se coragem) de perguntar se o relacionamento aconteceu depois que abri seus olhos. Queria poder dizer que me arrependo, mas não. Alguns mil quilômetros nos separam, e aquelas conversas, as minhas preferidas, no silencio do amanhecer feriam demais e não iam se concretizar como eu queria, ou o que nós queríamos. Pudera também dizer que queria só seus braços para me fazer esquecer do mundo. Mas eu precisaria muito mais de isso para me satisfazer. Seus olhos, sua respiração, sua boca, seu corpo. Você. É, o tempo passou, mas algumas pessoas conseguem avançar do passado, e permanecer no futuro comigo. E sabe-se lá por quanto tempo.

Instante

E lá estava, imóvel. Era difícil imaginar como um brincalhão e hiperativo como ele, poderia permanecer tão concentrado. Seus olhos se encontravam com o meu, e nesse instante tudo desaparecia. Aquele olhar. Os olhos cor de mel, o motivo do meu pouco, quase nulo, entendimento sobre o que é amar. E o motivo da minha insônia. Passava horas rolando na cama, com meu fone de ouvido no volume máximo na inútil tentativa de tentar desviar meus pensamentos para o futuro que eu não queria que acontecesse.

A notícia veio por telefone: “Amor, passei no vestibular, eu consegui!” Em meio a choro, sorrisos, comemorávamos devido ao esforço que ele havia feito pelo seu sonho, a ficha caiu: Medicina em uma das faculdades mais concorridas do país. O problema? 900 km que separam a faculdade da cidadezinha interiorana em que moro. 900 km que afastam do meu pedacinho de conto de fadas, de porto de seguro, da minha felicidade.

Malas despachadas, e o anúncio de embarque final. Seus lábios…beijo exigente, melancólico, beijo de despedida…abraço apertado,  e um eu te amo sussurrado selava assim a experiência do meu primeiro amor.