“Tenho tanto sentimento

fernando

Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Você.

 VOCÊ

Me deitei nessa cama com a certeza que esqueci de algo essa noite. Olhei em volta, e tudo permanecia a mesma coisa. A janela um pouco aberta com o barulho do transito que me faz dormir. O vento gelado. A coberta com cheiro de amaciante de bebê. Meus desenhos pendurados na minha escrivaninha. E na mesa um dos milhões de textos que já escrevi. Mas, talvez, seja algo dentro de mim. Procurei. Procurei. Procurei. Talvez um pedaço de mim tenha ido no momento em que a porta bateu, e você se foi sem aviso prévio. Um dia, dois, três. Uma semana, duas, três. Um mês, dois, três. O tempo só sabe brincar de ser cronológico. Porque entre o tempo psicológico e cronológico existe um buraco. Negro. Fundo. Um abismo de sentimentos, pensamentos, sofrimentos. Acho que tudo isso junto se chame saudade. Vivem me dizendo que isso vai passar. Também vivem me dizendo para correr atrás do que me faz bem. Me diz como escolher? Era você que me ajudava com isso. Era você o escolhido para eu deitar minha cabeça em seu colo, enquanto eu pensava e você deslizava suas mãos em meu cabelo. A melhor sensação do mundo. Ou uma das. Você sempre foi – e será que sempre será? – a melhor sensação que já provei. A unica que mexe com todos meus sentidos, com todos meus pensamentos em uma sequência que embaralha-desembaralha-embaralha-desembaralha meus pensamentos. Você… presente que deveria ser passado…