Trilha sonora de abril

Que saudade eu estava de fazer trilha sonora do mês! Dessa vez de abril! É impressão minha ou esse ano tá passando muito rápido? Quando eu era mais nova e ouvia essa lenga-lenga achava que era papo de tio, mas sinto que conforme envelheço, os anos passam mais rápido. Digressões a parte, e para variar, abril foi um mês muito eclético… tem música para todos os gostos e momentos. Espero que gostem! Aproveitem!

5h48m

A luz vinda do amanhecer vaga suave entre o quarto, ofuscada pela cortina semi-aberta que voa com a brisa vinda das árvores da pequena ruazinha de grandes árvores que chegam até o terceiro andar. O cômodo ocupado por uma cama, prateleiras, um armário e duas pessoas traziam muito mais que um belo raiar do sol. A maciez dos sentimentos contidos naquele interior acetinavam as mazelas dos que ali já sentiram. A exterioriedade de algo tão sublime transcendia o que havia de mais bonito e coloria, como os raios que pintavam o céu, todo o resto.

Limbo

Nos seus ombros miúdos faltava-lhe energia e nos seus olhos, brilho. Caminhava numa antropoformização de gente com burro de carga no final da noite, cansado, com sede, faminto e sem propósito. Seu sorriso era exausto e escondia um passado que não gostava de lembrar e envergonhava-se da importância que ele tivera no resto de sua vida solitária. Não era casada, não tinha filhos ou um emprego permanente. Não por opção. O seu nome não era recordado por quase ninguém, mas poderia bem chamar-se Macabéa. De pele opaca, rugas nos olhos e aparência cansada, arrastava-se pelos corredores de uma vida, buscando um sentido que nunca encontraria.

Irrupção

As doses homeopáticas de amor encurralam-se em uma ruína devastada e que sustenta-se aos trancos e barrancos por dois frágeis pilares em um morro afastado. Enquanto os soldados, verdes, cobertos e ariscos forçam a entrada para se apossar de mais uma relíquia que permanecera praticamente intocada.

Tudo que um dia havia existido desmoronava sem deixar resquícios de existência ou que havia sido motivo de contemplação pelos visitantes que passaram por lá. As que restavam, nos cantos e indefesas, tentavam reencontrar, em meio a poeira da devastação, um pouco de oxigênio para respirar e encher seus pulmões enquanto tomavam espaço e, pacientemente, reconstruíam-se a tempo da próxima marcha subir a colina.

Cobiça

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Eu cobiço o meu toque e o meu beijo em teu corpo. Eu cobiço conhecimento de cada pedaço de pele seu, cada pinta escondida em alguma parte que você sequer sabia. Cobiço você por completo.

Cobiço sua mente e possibilidade de entrelaçar seus pensamentos em minhas mãos, como faria com seus cabelos enquanto olho seus olhos invadida por felicidade.

Cobiço o adormecimento dos meus lábios pelo tanto que eu te beijo e por noites viradas regadas a descobertas sobre nós mesmos e a colisão em um só.

Cobiço também a possibilidade de não te idealizar tanto. Que você não fosse o destinatário dos meus textos.

Cobiço a realidade e ela me livrando da quantidade de sonhos que envolvem você como protagonista.

 

 

Exceção

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Sempre tive facilidade ao narrar amores quiméricos e quebrados que trazem de brinde consigo um coração esfacelado. Tristezas inflamam em mim – e na maioria das pessoas que optam por escrever e aliviar as dores do que está sentido nas palavras ao invés de sessões e mais sessões deitada num divã e com o bolso quase falido  – vontade de exprimir, aclarar e desembaraçar os nós do que está acontecendo no imo.

Os momentos de felicidade ou degustação de um amor benigno sempre me obrigaram mais a vivência-los do que sair bradando o que eu estou sentindo. Como se no momento que eu o exteriorizasse, esse sentimento fosse se esvaziando e tornando-se concreto – e a graça de sentir, para mim, é o não entendimento dele, a graça de sentir é bagunça que se faz  lá no coração com a mistura do amor com a felicidade, sonho e ansiedade.

Mas resolvi abrir uma exceção porque bem… você é a exceção. Meu coração, até hoje, bate de forma frenética com sua aproximação, o seu beijo ainda desperta em mim a mesma vontade de te ter desde que te idealizei e te quis platonicamente, ainda me arrepio quando seu perfume atiça meu olfato e eu ainda sinto que não te conheço por completo e me fascino com seu tino e sua bondade.

É incrível amar e poder ser amada ainda sabendo todas as falhas, medos e fraquezas. É incrível sentir algo tão intenso e ao mesmo tempo tão sereno que amansa e silencia todos os demônios que costumavam amedrontar em noites silenciosas e chuvosas. É incrível ter você.