Devaneio

peac

A fresta da porta do terceiro andar deixava escapar um feixe de luz as quatro e meia da manhã. Mal sabiam os vizinhos o significado da insônia diária da condômina. Sua antemanhã se resumia em devaneios de alguém que mal tinha noção do que pensava. Sua mente funcionava vinte quatro horas por dia em pensamentos tão demasiados que o próprio demasiado não exprimia a real velocidade das informações que ela processava – ou não – em uma cabeça mais bagunçada que o quarto do seu irmão mais novo.

Vivia sozinha mas não se sentia só. Se sentia, é na verdade (e lá no íntimo) acolhida por ela mesmo. Gostava do silêncio do apartamento com a sinfonia de carros, motos e pessoas que andavam pela rua movimentava em que morava. As vezes, o barulho da chuva se unia a tudo isso e o concreto parecia multiplicar todos os sons. Nessas noites quase amanhecidas ela conseguia, sem o mínimo esforço, grafar em uma folha de papel cada palavra sentimentalizada dela mesma. Se sentia livre – mesmo engaiolada em um apartamento de oitenta metros quadrados – e conseguia se aceitar com os mil e um defeitos. Não sentia medo das reações de alheios. Nessas madrugadas infames, podia respirar fundo e se sentir menos hipócrita e menos padrão, sem papas na línguas (ou no lápis, ou no papel), sem convenções, sem palavras educadas que exprimem o vazio.

O sol nascia e ela adormecia. Depois de um porre endorfina seu corpo pedia uma cama macia e um banho quente. Sorria intimamente com a sensação conquistada por apenas redigir e desembaralhar os seus sentimentos e transcreve-los em palavras. Talvez gostasse disso, ou talvez gostasse da ociosidade. Sei lá.

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