Agudez

Queria voltar no tempo. Ou mais especificamente naquela madrugada de sábado que quis emendar a noite com você mas meu juízo sobressaiu a tanto álcool. Meu bom senso me torturava para não te encontrar depois de tudo que havia acontecido naquela mesma festa. Queria ter ido mesmo assim. Ao menos eu teria algo mais concreto para lembrar (e me arrepender) do que só tua voz e as inúmeras conversas que tanto me aconchegavam.

Nos últimos dois anos era incômodo demais viver na minha pele. Tudo doía demais e eu me fechava demais. Eu sarei e você apareceu logo em seguida da mesma forma que eu estava: apagado pela dor e com a cabeça mais confusa que Passo dello Stelvio.

Queria que tivéssemos tido tempo. Se não fosse aquele dia, talvez hoje estaríamos juntos e nossos encontros já teriam passado dos cem. Eu te acompanharia nesse caminho ou ao menos mostraria um percurso menos dolorido e bem menos solitário.

O último

Esse texto não é dedicado a você, é dedicado para mim. Você foi apenas parte de um percurso para que eu compreendesse algo maior.

Nós não fomos suficientes para nós. Não que exista esse plural quando se trata de nós (!) dois – ainda que minha mente insista em acreditar nessa mentira em madrugadas em que minha mente e regadas a insônia ou quando me deparo com algo que você gosta – ou gostava? Vai saber… – e todo esse minúsculo passado feliz que volta para esquentar meu coração.

Nós não somos suficientes para nós. Não porque eu goste de comédia romântica ou sinta mais sono assistindo ficção científica do que tomando um sedativo. Não porque você abomina o Adam Sandler e acha que passar uma noite lendo HQ seja um programão para o final de semana. Nós não somos suficientes para nós porque o que nos diferenciou foi mais forte do que o que nos uniu.

Nós não somos suficientes para nós porque você não foi suficiente para mim; A brevidade de felicidade que você me trouxe veio acompanhado de um inverno não metafórico de tristeza e uma tentativa falha de parecer feliz. Me trouxe semanas em casa, enclausuradas com livros e nos textos que dediquei a você com o coração apertado.

E eu não fui suficiente para você. Não por falta de esforço ou afeto. Não fui suficiente apenas por não ser… suficiente.

Talvez o que mais me doeu nesse tempo foi tentar ser o que não era e me perder e perder você no meio desse caminho. Me moldar (engrandecendo algumas partes e diminuindo outras) para caber em algo que fosse ideal para você. Enquanto eu transbordava nas bordas, culpada, enquanto algumas outras permaneciam incompletas.

E hoje aprendi:

Ocupo mais espaço e me expando sem vergonha alguma da extensão de mim mesma.

Nós não somos suficientes porque ser suficiente para um outro não é algo unilateral.

E apesar de tudo, não te culpo… sermos sujeitos com qualidades e defeitos não nos tornam culpados. Apenas diferentes demais para sermos suficientes.

Flor de Lis

Eu não consigo lembrar de você sem as minhas incertezas. Do que foi real e do que transformado pelo meu sentir medroso.
Não tenho mais certeza de suas palavras e do seu olhar, da sua voz e da sua doçura, do que foi exposto e das dores que eu escondi por me machucarem demais.
Não me lembro mais de que é te amar sem murchar, de te lembrar sem culpa, desabar e ser acolhida. Ou talvez isso também faz parte do que não existiu e eu inventei? Eu quase não me lembro mais. O nosso passado já é tão passado que centenas de vidas já passaram pela gente, assim como o que acreditávamos e os problemas que vivíamos.
Eu sei que eu não pertenço mais ao seu presente e futuro e você não pertence mais ao meu. Você tá feliz e eu tô… vivendo. No modo automático. Supondo se seus conselhos seriam úteis ou se eu me afastaria de novo com medo de me despedaçar.
Eu sempre te vi como diferente, carregado de uma sensibilidade singular e uma vontade de me fazer feliz que ninguém nunca teve. Sei também da minha capacidade de embelezar o monótono e disso ser uma possível alucinação metafísica de alguém que poderia me ajudar e que não se esconde atrás de um comportamento operante.
A verdade é que a verdade dói demais… às vezes enganá-la pode ser benéfico.

Fim

Eu sinto seu coração bater enquanto você escapa entre meus dedos com um suspiro alto e agudo. Teu corpo desfalece como uma tela branca tomada por pinceladas roxas e avermelhadas, que quase me excitam como o seu lento apagar. O tempo consumiu muitas das coisas, menos o seu último olhar surpreso e indefeso e a sua ingênua tentativa de continuar o seu fim que morreu inacabado.
A sua vida ainda corre entre as memórias de quem você era, esparsas pela frieza e apatia de quem te amava. O que poderia ter te lembrado, hoje descansa entre o livro que você quase terminará e a voz que não ecoou no ouvido de quase ninguém.
Mas a tua presença ainda estará acorrentada por mim e pelo meu amor, íntegro e intenso, junto da maldade tua de maldizer e não corresponder o platônico de minha admiração.
O que poderia ser um nós, acabou, para nós dois, como um fim.
Graças a você.
Vadia.

Inominável

O que eu sinto por você não tem nome. Ou talvez o que eu sinto fosse melhor descrito como a dor que entrelaça minhas veias e arde, fazendo com que meu coração bata na mesma velocidade que os passos de uma dançarina no carnaval da Sapucaí.

Tudo em mim modifica perante ao meu sentimento. Você me modificou. A intensidade de tudo e a efemeridade de tudo sacudiu todos os meus ossos e me desalinhou por completo. Remontar-me é uma competição contra o tempo em cronometra-se os segundos até que eu me perca novamente da sensatez, que esvazia-se com seus olhos que envergonham qualquer paleta azul que possa existir. Ou com o gosto do seu beijo que me fareja a quilômetros de distância.

Não que faça-se preciso. A única necessidade que eu almejo é a vivacidade traçada por nós.

Átimo

Eu queria que várias vidas contivessem dentro da minha. Ou ao menos alguns capítulos a mais de uma juventude que passa voando que quase me perco com o assoprar das velas. Queria poder ser tudo, vivenciar tudo, sem essa pressa que devora desesperadamente trazendo a sensação de que não há tempo suficiente para contemplar cada detalhe que passaria despercebido se não fosse visto com atenção. São infinitos os lugares, bairros, ruas, pessoas, trejeitos, características, perspectivas, sabores, odores e singularidades e uma rapidez constante que apenas um eu elevado a milhões poderia dar conta de tudo. O passar do tempo e o uso dele é uma contagem regressiva para um gran finale que simplifica-se em um maniqueísmo oportuno: é algo desastrosamente ruim ou sensacionalmente bom. E sem segundas chances.